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Arqueologia

Mesas do Castelinho

As Mesas do Castelinho são um sítio arqueológico classificado como Imóvel de Interesse Público, a cerca de 2 km da aldeia de Santa Clara-a-Nova, no concelho de Almodôvar. Um povoado da Idade do Ferro fundado entre os finais do século V e os inícios do século IV a.C. junto à Ribeira de Mora, na fronteira entre a planície e a serra, no alto vale do Mira. Estende-se por três hectares e meio a quatro, esteve ocupado de forma contínua até aos inícios do século II d.C. e, muito mais tarde, acolheu uma fortificação rural islâmica. É a principal atração arqueológica de Santa Clara-a-Nova e, nas palavras do percurso de visita do Município de Almodôvar, "um dos mais importantes sítios arqueológicos do sul de Portugal".

Vista aérea das escavações e dos passadiços das Mesas do Castelinho, perto de Santa Clara-a-Nova, Almodôvar

De onde vem o que está nesta página

Tudo o que aqui se afirma vem da investigação publicada pela equipa que escavou o sítio entre 1988 e 2018, e do registo estatal de trabalhos arqueológicos. Onde as fontes divergem, como na data de fundação, na muralha ou no fim da ocupação islâmica, esta página usa a formulação que nenhuma delas contradiz, e o registo de evidência mostra porquê, com as fontes e as páginas.

Como sabemos o que mostramos

História

Da aldeia amuralhada da Idade do Ferro ao pequeno castelo islâmico

O sítio ocupa duas plataformas aplanadas no topo de uma colina: a plataforma A, arredondada e mais alta, e a plataforma B, trapezoidal e mais baixa, num total de três hectares e meio a quatro. É desta forma em mesa que vem o nome "Mesas". O "Castelinho" chegou muito depois, com a fortificação islâmica medieval. A cronologia que se segue é a estabelecida pelos arqueólogos que escavam o sítio desde os anos 1980: Carlos Fabião e Amílcar Guerra, da Universidade de Lisboa (UNIARQ), e Susana Estrela, que estudou os níveis de fundação.

Fundação: finais do século V à primeira metade do século IV a.C.

O povoado foi fundado entre os finais do século V e os inícios do século IV a.C., na Segunda Idade do Ferro, numa via natural de circulação de pessoas e bens e em terreno sem ocupação anterior, uma "fundação de raiz", nas palavras dos escavadores. Nesta fase mais antiga (a Fase III, na numeração de Estrela) houve na plataforma superior um momento de cabanas de postes e lareiras anterior à construção da fortificação: o povoado começa sem muralha. Se a muralha pertence ainda à fase fundacional ou a um momento posterior é uma questão que os próprios escavadores dão como estratigraficamente indecidível, e as duas leituras estão postas lado a lado no registo de evidência. Estrela lê-a, em todo o caso, não como linha defensiva mas como "uma marca na paisagem, um ponto de referência, mais do que um local que se queria inexpugnável".

Continuidade: segunda metade do século IV a finais do século III a.C.

O povoado manteve-se ocupado sem interrupção ao longo deste período, na continuidade da fase de fundação. Grande parte do quotidiano desta fase continua literalmente debaixo do chão: a estimativa de que apenas cerca de 10% do sítio foi escavado é de Carlos Fabião, citado na imprensa, e não uma medição publicada.

Fase final da Idade do Ferro: século II a.C.

A última fase da Idade do Ferro, já no século II a.C., concentrou-se na plataforma B. É neste período que o povoado mostra alguns dos mais antigos contactos conhecidos com o mundo romano em toda a região. A muralha já não estava em uso: nos níveis romanos Estrela regista "a ausência total do amuralhado", e há compartimentos republicanos assentes por cima dela. Em momento algum existe um horizonte de destruição: "sem quebras nem níveis de destruição".

Época romana: século II a.C. a inícios do século II d.C.

Em época romana republicana, entre os finais do século II e o primeiro quartel do século I a.C., o povoado recebeu um cuidadoso plano ortogonal, com três ruas norte-sul e quarteirões, como se se preparasse para ser uma cidade. A plataforma superior, de onde a ocupação se retirara no século II a.C., voltou a ser construída: o percurso de visita do Município situa ali uma zona residencial romana do século I a.C., com fornos encostados às casas e uma estrutura de escoamento de águas, reaproveitando construções da Idade do Ferro, e dá-a por abandonada a meio desse século, antes, portanto, do abandono geral do povoado. Em época augustana o programa inverte-se: as ruas são obstruídas, as casas grandes subdivididas em pequenos compartimentos, e a plataforma superior aparentemente deixa de estar em uso. O abandono chega nos inícios do século II d.C., de forma gradual. A história completa deste "urbanismo falhado", e a explicação que os escavadores lhe dão, está contada mais abaixo.

Fortificação islâmica: séculos IX a XI

Depois de cerca de setecentos anos praticamente sem ocupação, o topo da colina voltou a ser ocupado por uma fortificação rural do período omíada, com um povoado associado na plataforma inferior, ativa entre os séculos IX e XI. É dela que vem o nome "Castelinho". As três datações de radiocarbono do fosso do castelo são demasiado largas para decidir, e os autores chamam-lhes "pouco úteis": são as cerâmicas que fixam o intervalo: formas emirais e califais presentes, almóadas ausentes.

Um urbanismo falhado

A cidade que a estrada romana esqueceu

Os arqueólogos Amílcar Guerra e Carlos Fabião descrevem as Mesas do Castelinho como um exemplo de "urbanismo falhado" no sul da Lusitânia (Guerra e Fabião, 2010). Em época romana republicana, entre os finais do século II e os inícios do século I a.C., o povoado recebeu um cuidadoso plano ortogonal, com três ruas norte-sul e o traçado regular que se esperaria de uma futura cidade romana.

Só que a cidade nunca chegou a existir, e os próprios escavadores recusam a palavra: "a inexistência de indícios de uma arquitectura pública impede-nos de considerar este aglomerado como uma cidade". A explicação que dão para o abandono é uma interpretação sua, construída a partir dos itinerários romanos e não documentada de forma independente: a criação da Lusitânia sob Augusto, Pax Iulia como sede legal a 70 km de distância, a atração das minas augustanas, uma rede viária que contornou a passagem do Caldeirão e, sobretudo, a escolha de Arandis, provavelmente Garvão, como sede da civitas. Fora das estradas, fora do mapa: as Mesas do Castelinho foram abandonadas nos inícios do século II d.C., depois de mais de meio milénio de ocupação contínua.

É uma lição com 2000 anos sobre o poder das infraestruturas: quem fica fora da rede, desaparece. Poucos lugares a contam de forma tão clara como esta colina do Baixo Alentejo.

O Castelinho islâmico

Uma fortificação rural entre os séculos IX e XI

Depois de um longo abandono, o sítio voltou a ser ocupado no período islâmico. Entre os séculos IX e XI funcionou ali uma fortificação rural de época omíada, com um povoado associado na plataforma inferior, provavelmente ligada ao controlo do território durante o domínio muçulmano. Do estudo de 983 ossos os escavadores concluem que não havia porco doméstico e que a caça pesava muito, e daí que "não são camponeses fortificados, mas sim um grupo de funções eminentemente guerreiras": uma guarnição colocada por um poder externo. É desta pequena fortaleza que vem o nome "Castelinho".

Destruição, descoberta e investigação

De 1986 até hoje: a carreira científica do sítio

A destruição do sítio não foi um episódio, foram três. Em finais dos anos 1950 o então proprietário aplanou a plataforma superior, destruindo grande parte do interior da fortificação islâmica. Nos anos 1960, os movimentos de terras para plantar o olival que ainda hoje cobre a plataforma inferior revolveram as camadas acima dos níveis romanos. E em finais de 1986 uma máquina trabalhou mais de duas semanas na colina à procura de um tesouro, abrindo na plataforma B um corte com mais de cinco metros de altura. Cerca de um terço do sítio foi destruído. O Município de Almodôvar atribui a destruição de 1986 a caçadores de tesouros da lenda do Homem-Lagarto; a busca de tesouros no local, essa, tem um "longo historial" registado já em 1960.

Foi um desastre patrimonial, mas teve uma consequência inesperada: lançou a carreira científica do monumento. A destruição de 1986 desencadeou escavações de emergência dirigidas por Carlos Jorge Ferreira (IPPC). Em 1988, Carlos Fabião e Amílcar Guerra, da Universidade de Lisboa (UNIARQ), foram convidados a assumir a investigação, e a partir de 1989 decorreram campanhas sistemáticas, com Susana Estrela como co-coordenadora desde 2006. Em 1990, as Mesas do Castelinho foram classificadas como Imóvel de Interesse Público (Decreto n.º 29/90, DR I Série n.º 163, de 17 de julho de 1990).

A escavação terminou com o Sector A4 em setembro de 2018, depois de oito sectores intervencionados; em junho de 2022 houve ainda prospeção não invasiva com georradar e uma campanha listada nesse verão, sob o nome PROMECA. Entre os achados contam-se uma estela com Escrita do Sudoeste, avistada no final da campanha de 2007 na Rua 1 do Sector B3 e levantada em setembro de 2008. Estava reutilizada, com a face gravada voltada para baixo, num aterro que preparava o piso de circulação da rua, cerca de três séculos mais recente do que a própria inscrição. E uma cabeça humana de terracota, encontrada em 1995 no Sector A1 em posição secundária, que a única arqueóloga a publicar sobre ela lê como "um brinquedo, ou mesmo um objecto decorativo", exposta no museu da aldeia. A arqueobotânica é das evidências mais fortes do sítio: a cevada é a cultura mais ubíqua em todas as fases, em solos já empobrecidos no século IV a.C. E de uma fossa do início da ocupação romana republicana saíram noventa sementes de figo, com dois vasos partidos que colam e um objeto de ferro, um depósito que, nas palavras dos autores, "porventura" assinalaria o momento inaugural daquele espaço, e não uma refeição.

Muralhas e estruturas escavadas da Idade do Ferro nas Mesas do Castelinho

Explorar mais

Duas histórias que nascem nesta colina

Museu Manuel Vicente Guerreiro

O ponto de partida ideal, no centro da aldeia

Fachada do Museu Arqueológico e Etnográfico Manuel Vicente Guerreiro, em Santa Clara-a-Nova: paredes caiadas e portão de madeira

O Museu Arqueológico e Etnográfico Manuel Vicente Guerreiro foi inaugurado em 2015 na aldeia de Santa Clara-a-Nova (Rua da Estrada Municipal 29). Tem um espaço inteiramente dedicado à arqueologia, onde se expõe parte do espólio recuperado nas Mesas do Castelinho, e uma coleção etnográfica sobre a vida rural, as profissões e as alfaias da planície e da serra. É o ponto de partida ideal para a visita ao sítio arqueológico. Contacto através da Câmara Municipal de Almodôvar: +351 286 660 600.

Informações de visita

Como chegar e o que saber antes de visitar

LocalizaçãoA cerca de 2 km de Santa Clara-a-Nova, concelho de Almodôvar
EntradaAcesso livre ao exterior
Duração sugerida1 a 2 horas (sítio arqueológico), mais 1 hora para o museu
AcessibilidadePassadiços para pessoas com mobilidade reduzida (percurso de visita construído entre 2020 e 2023)
IdiomasPortuguês, inglês, francês e espanhol (códigos QR no local)
ContactoCâmara Municipal de Almodôvar: +351 286 660 600

Visite em 360° com guia

Antes de vir, ou se não puder deslocar-se, percorra as Mesas do Castelinho em 360° a partir de três pontos no passadiço, com um guia virtual que conta a história do sítio. Gratuito, no navegador.

Visita virtual das Mesas do Castelinho

Como chegar

A partir de Santa Clara-a-Nova, o sítio fica a cerca de 2 km, com acesso sinalizado (cerca de 5 minutos de carro). A partir de Almodôvar, seguir pela EN2 em direção a Santa Clara-a-Nova (cerca de 15 km) e depois a sinalização. A partir de Beja, seguir pela A2 até Almodôvar (cerca de 70 km) e continuar até Santa Clara-a-Nova.

Dicas para a visita

  • •Calçado confortável recomendado para o terreno
  • •Levar água e proteção solar, especialmente no verão
  • •Começar pelo Museu Manuel Vicente Guerreiro para obter contexto histórico
  • •Audioguias disponíveis para visitas de grupo (reservar previamente)
  • •Códigos QR no local para visitas autónomas em quatro idiomas
  • •Combinar com uma visita ao MESA, em Almodôvar (15 km)
  • •No verão, evitar as horas de maior calor (12h às 17h)
  • •Vista panorâmica excecional ao nascer e ao pôr do sol

Roteiro sugerido (1 dia)

Manhã: visita ao Museu Manuel Vicente Guerreiro, em Santa Clara-a-Nova (1 hora), seguida da deslocação às Mesas do Castelinho (2 km, 5 minutos de carro) e visita ao sítio arqueológico com audioguia ou códigos QR (1 a 2 horas). Tarde: almoço em Santa Clara-a-Nova e deslocação ao MESA, em Almodôvar (15 km, 20 minutos), com visita ao museu e ao centro histórico (1 a 2 horas). Um dia completo de património arqueológico.

Perguntas frequentes

Respostas às perguntas mais comuns sobre as Mesas do Castelinho

O que são as Mesas do Castelinho?

São um sítio arqueológico classificado como Imóvel de Interesse Público, a cerca de 2 km de Santa Clara-a-Nova, no concelho de Almodôvar, Baixo Alentejo. Um povoado de três hectares e meio a quatro, fundado entre os finais do século V e os inícios do século IV a.C., ocupado continuamente até aos inícios do século II d.C. e, mais tarde, sede de uma fortificação rural islâmica entre os séculos IX e XI.

Quando foi fundado o povoado?

Entre os finais do século V e os inícios do século IV a.C., na Segunda Idade do Ferro. A própria equipa que escava o sítio (Carlos Fabião e Amílcar Guerra, da Universidade de Lisboa, e Susana Estrela) escreve as duas pontas deste intervalo em publicações diferentes, pelo que o intervalo é a forma honesta de o dizer. A datação assenta em taças Cástulo áticas e ânforas gaditanas; não há datações de radiocarbono para este momento. Nasceu numa via natural de circulação de pessoas e bens, em terreno sem ocupação anterior.

Porque foi o povoado abandonado?

Segundo a interpretação dos escavadores, porque a reorganização romana do território o deixou de fora: a criação da Lusitânia sob Augusto, uma nova rede viária que contornou a passagem do Caldeirão e a escolha de Arandis, provavelmente Garvão, como sede da civitas. É uma leitura construída a partir dos itinerários romanos, não um facto documentado de forma independente. Apesar de um cuidadoso plano ortogonal de época republicana, o povoado nunca se tornou uma cidade e foi abandonado nos inícios do século II d.C. Guerra e Fabião (2010) chamam-lhe um exemplo de "urbanismo falhado" no sul da Lusitânia.

De onde vêm os nomes "Mesas" e "Castelinho"?

"Mesas" vem das duas plataformas aplanadas que formam o sítio, a plataforma A (arredondada, superior) e a plataforma B (trapezoidal, inferior), num total de três hectares e meio a quatro. "Castelinho" vem da fortificação rural islâmica que ocupou o topo da colina entre os séculos IX e XI.

Como chegar às Mesas do Castelinho?

O sítio fica a cerca de 2 km de Santa Clara-a-Nova, com acesso sinalizado (cerca de 5 minutos de carro). A partir de Almodôvar são cerca de 15 km. A partir de Beja, seguir pela A2 até Almodôvar (cerca de 70 km) e continuar até Santa Clara-a-Nova.

O sítio é acessível a pessoas com mobilidade reduzida?

Sim. O percurso de visita, com passadiços acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida, foi construído entre 2020 e 2023. Há também audioguias para visitas de grupo e códigos QR para visitas autónomas, com informação em português, inglês, francês e espanhol. O acesso ao exterior do sítio é livre.

Quanto tempo demora a visita?

Entre 1 a 2 horas para o sítio arqueológico. Vale a pena começar pelo Museu Manuel Vicente Guerreiro, na aldeia (cerca de 1 hora), e, para um programa de dia inteiro, juntar o MESA, em Almodôvar (15 km).

Quanto do sítio já foi escavado?

Cerca de 10%, segundo Carlos Fabião citado na imprensa; é a estimativa do próprio diretor, não uma medição publicada. A escavação decorreu entre 1988 e 2018, em oito sectores, e em junho de 2022 houve ainda prospeção com georradar. A maior parte da história continua debaixo do chão.

Qual é a lenda associada às Mesas do Castelinho?

A lenda do Homem-Lagarto: uma mulher idosa entra numa casa encantada cheia de riquezas, guardada por uma criatura metade homem, metade lagarto, com a condição de nunca invocar o nome de Deus. Ao fazer o sinal da cruz, tudo desaparece. Diz-se que o Homem-Lagarto ainda guarda o sítio. Caçadores de tesouros inspirados nesta lenda são apontados pelo Município de Almodôvar como responsáveis pela destruição de 1986.

Como sabemos o que está escrito nesta página?

Tudo o que aqui se afirma vem da investigação publicada pela equipa que escavou o sítio e do registo estatal de trabalhos arqueológicos. A página "Como sabemos o que mostramos" reúne o registo de evidência: as fontes com páginas, o que está atestado e o que é inferido, os pontos em que os especialistas discordam e as lacunas que ninguém preencheu. A equipa de escavação não reviu esse registo.