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Arqueologia

Mesas do Castelinho

As Mesas do Castelinho são um sítio arqueológico classificado como Imóvel de Interesse Público, a cerca de 2 km da aldeia de Santa Clara-a-Nova, no concelho de Almodôvar. Um povoado fortificado da Idade do Ferro, fundado nos finais do século V a.C. junto à Ribeira de Mora, na fronteira entre a planície e a serra, no alto vale do Mira. Foi ocupado de forma contínua até ao início do século II d.C. e, muito mais tarde, acolheu uma fortificação rural islâmica. É a principal atração arqueológica de Santa Clara-a-Nova e um dos sítios mais importantes do sul de Portugal.

Vista aérea das escavações e dos passadiços das Mesas do Castelinho, perto de Santa Clara-a-Nova, Almodôvar

História

Da aldeia amuralhada da Idade do Ferro ao pequeno castelo islâmico

O sítio ocupa duas plataformas aplanadas no topo de uma colina: a plataforma A, arredondada e mais alta, e a plataforma B, trapezoidal e mais baixa, num total de cerca de 4 hectares. É desta forma em mesa que vem o nome "Mesas". O "Castelinho" chegou muito depois, com a fortificação islâmica medieval. A cronologia que se segue é a estabelecida pelos arqueólogos que escavam o sítio desde os anos 1980: Carlos Fabião e Amílcar Guerra, da Universidade de Lisboa (UNIARQ), e Susana Estrela, que estudou os níveis de fundação.

Fundação: finais do século V à primeira metade do século IV a.C.

O povoado foi fundado nos finais do século V a.C., na Segunda Idade do Ferro, como uma aldeia amuralhada implantada numa via natural de circulação de pessoas e bens. Nesta fase mais antiga (a Fase III, na numeração de Estrela) foi construído um perímetro amuralhado que abraçava as duas plataformas. Apesar do aspeto imponente, os arqueólogos descrevem um povoado fortificado mas não conflitual: as muralhas serviam sobretudo de referência na paisagem e de apoio estrutural, não de linha defensiva.

Continuidade: segunda metade do século IV a finais do século III a.C.

O povoado manteve-se ocupado sem interrupção ao longo deste período, na continuidade da fase de fundação. Como só cerca de 10% do sítio foi escavado até hoje, grande parte do quotidiano desta fase continua literalmente debaixo do chão.

Fase final da Idade do Ferro: século II a.C.

A última fase da Idade do Ferro, já no século II a.C., concentrou-se na plataforma B. É neste período que o povoado mostra alguns dos mais antigos contactos conhecidos com o mundo romano em toda a região. Os habitantes chegaram a construir por cima das próprias muralhas, sinal de que estas nunca funcionaram como verdadeira linha de defesa.

Época romana: século II a.C. a inícios do século II d.C.

Em época romana republicana, o povoado foi reorganizado segundo um cuidadoso plano ortogonal, como se se preparasse para ser uma cidade. Mas a nova rede viária romana deixou-o de fora e o povoado foi abandonado no início do século II d.C. A história completa deste "urbanismo falhado" está contada mais abaixo.

Fortificação islâmica: séculos IX a XI-XII

Depois de cerca de 700 anos de abandono, o topo da colina voltou a ser ocupado por uma fortificação rural do período omíada, ativa entre o século IX e os séculos XI-XII. É dela que vem o nome "Castelinho".

Um urbanismo falhado

A cidade que a estrada romana esqueceu

Os arqueólogos Amílcar Guerra e Carlos Fabião descrevem as Mesas do Castelinho como um exemplo de "urbanismo falhado" no sul da Lusitânia (Guerra e Fabião, 2010). Em época romana republicana, o povoado recebeu um cuidadoso plano ortogonal, com o traçado regular que se esperaria de uma futura cidade romana.

Só que a cidade nunca chegou a existir. Quando a nova rede viária romana foi traçada, ignorou o povoado. Fora das estradas, fora do mapa: as Mesas do Castelinho foram abandonadas no início do século II d.C., depois de mais de meio milénio de ocupação contínua.

É uma lição com 2000 anos sobre o poder das infraestruturas: quem fica fora da rede, desaparece. Poucos lugares a contam de forma tão clara como esta colina do Baixo Alentejo.

O Castelinho islâmico

Uma fortificação rural entre os séculos IX e XI-XII

Depois de um longo abandono, o sítio voltou a ser ocupado no período islâmico. Entre o século IX e os séculos XI-XII funcionou ali uma fortificação rural de época omíada, provavelmente ligada ao controlo do território durante o domínio muçulmano. É desta pequena fortaleza que vem o nome "Castelinho". A influência islâmica marcou profundamente toda a região: o próprio nome "Almodôvar" vem do árabe al-Mudawwar, "o redondo".

Destruição, descoberta e investigação

De 1986 até hoje: a carreira científica do sítio

Nos finais de 1986, parte dos vestígios foi destruída com maquinaria pesada, sobretudo na plataforma superior e na encosta nascente. O Município de Almodôvar atribui a destruição a caçadores de tesouros que perseguiam as riquezas da lenda do Homem-Lagarto. Foi um desastre patrimonial, mas teve uma consequência inesperada: lançou a carreira científica do monumento.

A destruição desencadeou escavações de emergência dirigidas por Carlos Jorge Ferreira (IPPC). Em 1988, Carlos Fabião e Amílcar Guerra, da Universidade de Lisboa (UNIARQ), foram convidados a assumir a investigação, e desde 1989 decorrem campanhas sistemáticas. Em 1990, as Mesas do Castelinho foram classificadas como Imóvel de Interesse Público (Decreto n.º 29/90, DR I Série n.º 163, de 17 de julho de 1990).

Apesar de décadas de trabalho, em 2021 apenas cerca de 10% do sítio tinha sido escavado. Entre os achados contam-se uma estela com Escrita do Sudoeste, descoberta em 2008, e uma cabeça humana de terracota de contexto da Idade do Ferro, hoje exposta no MESA, em Almodôvar. A arqueobotânica revelou até a dieta dos habitantes: cevada, trigo e figos.

Muralhas e estruturas escavadas da Idade do Ferro nas Mesas do Castelinho

Explorar mais

Duas histórias que nascem nesta colina

Museu Manuel Vicente Guerreiro

O ponto de partida ideal, no centro da aldeia

O Museu Arqueológico e Etnográfico Manuel Vicente Guerreiro foi inaugurado em 2015 na aldeia de Santa Clara-a-Nova (Rua da Estrada Municipal 29). Tem um espaço inteiramente dedicado à arqueologia, onde se expõe parte do espólio recuperado nas Mesas do Castelinho, e uma coleção etnográfica sobre a vida rural, as profissões e as alfaias da planície e da serra. É o ponto de partida ideal para a visita ao sítio arqueológico. Contacto através da Câmara Municipal de Almodôvar: +351 286 660 600.

Informações de visita

Como chegar e o que saber antes de visitar

LocalizaçãoA cerca de 2 km de Santa Clara-a-Nova, concelho de Almodôvar
EntradaAcesso livre ao exterior
Duração sugerida1 a 2 horas (sítio arqueológico), mais 1 hora para o museu
AcessibilidadePassadiços para pessoas com mobilidade reduzida (desde 2021)
IdiomasPortuguês, inglês, francês e espanhol (códigos QR no local)
ContactoCâmara Municipal de Almodôvar: +351 286 660 600

Como chegar

A partir de Santa Clara-a-Nova, o sítio fica a cerca de 2 km, com acesso sinalizado (cerca de 5 minutos de carro). A partir de Almodôvar, seguir pela EN2 em direção a Santa Clara-a-Nova (cerca de 15 km) e depois a sinalização. A partir de Beja, seguir pela A2 até Almodôvar (cerca de 70 km) e continuar até Santa Clara-a-Nova.

Dicas para a visita

  • Calçado confortável recomendado para o terreno
  • Levar água e proteção solar, especialmente no verão
  • Começar pelo Museu Manuel Vicente Guerreiro para obter contexto histórico
  • Audioguias disponíveis para visitas de grupo (reservar previamente)
  • Códigos QR no local para visitas autónomas em quatro idiomas
  • Combinar com uma visita ao MESA, em Almodôvar (15 km)
  • No verão, evitar as horas de maior calor (12h às 17h)
  • Vista panorâmica excecional ao nascer e ao pôr do sol

Roteiro sugerido (1 dia)

Manhã: visita ao Museu Manuel Vicente Guerreiro, em Santa Clara-a-Nova (1 hora), seguida da deslocação às Mesas do Castelinho (2 km, 5 minutos de carro) e visita ao sítio arqueológico com audioguia ou códigos QR (1 a 2 horas). Tarde: almoço em Santa Clara-a-Nova e deslocação ao MESA, em Almodôvar (15 km, 20 minutos), com visita ao museu e ao centro histórico (1 a 2 horas). Um dia completo de património arqueológico.

Perguntas frequentes

Respostas às perguntas mais comuns sobre as Mesas do Castelinho

O que são as Mesas do Castelinho?

São um sítio arqueológico classificado como Imóvel de Interesse Público, a cerca de 2 km de Santa Clara-a-Nova, no concelho de Almodôvar, Baixo Alentejo. Um povoado fortificado fundado nos finais do século V a.C., ocupado continuamente até ao início do século II d.C. e, mais tarde, sede de uma fortificação rural islâmica entre os séculos IX e XI-XII.

Quando foi fundado o povoado?

Nos finais do século V a.C., na Segunda Idade do Ferro, segundo os arqueólogos responsáveis pela escavação (Carlos Fabião e Amílcar Guerra, da Universidade de Lisboa, e Susana Estrela). Nasceu como aldeia amuralhada numa via natural de circulação de pessoas e bens.

Porque foi o povoado abandonado?

Porque a nova rede viária romana o deixou de fora. Apesar de um cuidadoso plano ortogonal de época republicana, o povoado nunca se tornou uma verdadeira cidade romana e foi abandonado no início do século II d.C. Guerra e Fabião (2010) chamam-lhe um exemplo de "urbanismo falhado" no sul da Lusitânia.

De onde vêm os nomes "Mesas" e "Castelinho"?

"Mesas" vem das duas plataformas aplanadas que formam o sítio, a plataforma A (arredondada, superior) e a plataforma B (trapezoidal, inferior), num total de cerca de 4 hectares. "Castelinho" vem da fortificação rural islâmica que ocupou o topo da colina entre os séculos IX e XI-XII.

Como chegar às Mesas do Castelinho?

O sítio fica a cerca de 2 km de Santa Clara-a-Nova, com acesso sinalizado (cerca de 5 minutos de carro). A partir de Almodôvar são cerca de 15 km. A partir de Beja, seguir pela A2 até Almodôvar (cerca de 70 km) e continuar até Santa Clara-a-Nova.

O sítio é acessível a pessoas com mobilidade reduzida?

Sim. Em 2021 foram instalados passadiços acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida. Há também audioguias para visitas de grupo e códigos QR para visitas autónomas, com informação em português, inglês, francês e espanhol. O acesso ao exterior do sítio é livre.

Quanto tempo demora a visita?

Entre 1 a 2 horas para o sítio arqueológico. Vale a pena começar pelo Museu Manuel Vicente Guerreiro, na aldeia (cerca de 1 hora), e, para um programa de dia inteiro, juntar o MESA, em Almodôvar (15 km).

Quanto do sítio já foi escavado?

Cerca de 10% até 2021, apesar de campanhas sistemáticas desde 1989 pela equipa da Universidade de Lisboa (UNIARQ). A maior parte da história ainda está debaixo do chão.

Qual é a lenda associada às Mesas do Castelinho?

A lenda do Homem-Lagarto: uma mulher idosa entra numa casa encantada cheia de riquezas, guardada por uma criatura metade homem, metade lagarto, com a condição de nunca invocar o nome de Deus. Ao fazer o sinal da cruz, tudo desaparece. Diz-se que o Homem-Lagarto ainda guarda o sítio. Caçadores de tesouros inspirados nesta lenda são apontados pelo Município de Almodôvar como responsáveis pela destruição de 1986.