Sabia que...?

Curiosidades

Histórias verdadeiras, lendas antigas e factos pouco conhecidos de Santa Clara-a-Nova e do concelho de Almodôvar. Cada resposta assenta em fontes históricas, arqueológicas ou oficiais.

Sabia que...?

Porque se chama a aldeia Santa Clara-a-Nova?

A aldeia e a paróquia têm como padroeira Santa Clara de Assis, fundadora das Clarissas. O culto de Santa Clara espalhou-se por Portugal através dos conventos das Clarissas fundados entre os séculos XIII e XVII, como os de Coimbra, Santarém e Vila do Conde. O "a-Nova" distingue a aldeia de Santa Clara-a-Velha, no vizinho concelho de Odemira, cuja igreja é dedicada à mesma santa.

Qual é a ligação entre a padroeira da aldeia e a televisão?

Santa Clara de Assis é a padroeira oficial da televisão. O Papa Pio XII proclamou-a em 14 de fevereiro de 1958, com base no relato de que, um ano antes de morrer, doente e sem poder sair da cela, Clara assistiu à missa projetada na parede do quarto. Um sítio na internet dedicado a Santa Clara-a-Nova está, por isso, em boa companhia.

Porque se celebra a Festa de Santa Clara a 12 de agosto?

No calendário litúrgico atual, a festa de Santa Clara é a 11 de agosto, dia da sua morte em 1253. Mas antes da reforma de 1970 celebrava-se a 12 de agosto, e a festa da aldeia preserva essa data antiga. A tradição local guardou o calendário que a própria Igreja entretanto mudou.

O que é a "cidade romana falhada" ao lado da aldeia?

Os arqueólogos Amílcar Guerra e Carlos Fabião descrevem as Mesas do Castelinho como um exemplo de "urbanismo falhado" no sul da Lusitânia: um povoado com um cuidadoso plano ortogonal de época romana republicana que nunca chegou a ser uma verdadeira cidade romana. Quando a nova rede viária romana foi traçada, deixou o povoado de fora, e este foi abandonado no início do século II d.C. Uma lição com 2000 anos sobre o que acontece a quem fica fora do mapa.

Quanto do sítio arqueológico já foi escavado?

Cerca de 10%, segundo Carlos Fabião citado na imprensa; a estimativa do próprio diretor, não uma medição publicada. A escavação decorreu entre 1988 e 2018, em oito sectores, e a maior parte das Mesas do Castelinho continua literalmente debaixo do chão.

O que se comia nas Mesas do Castelinho há mais de 2000 anos?

A cevada, acima de tudo: é a cultura mais ubíqua em todas as fases do povoado, em solos já empobrecidos no século IV a.C., numa paisagem dominada por estevais com manchas de azinheira e sobreiro. Comia-se também carne: o veado aparece em todas as partes do esqueleto, sinal de que era processado no local, e o gado bovino era o que mais pesava na alimentação. Há ainda noventa sementes de figo numa fossa do início da ocupação romana republicana, mas essas os autores leem como um depósito que "porventura" assinalaria a inauguração daquele espaço, e não como uma refeição.

Quem é o Homem-Lagarto?

Segundo a lenda registada pelo Município de Almodôvar, uma mulher idosa foi convidada a entrar numa casa encantada cheia de riquezas no Monte Novo do Castelinho, guardada por uma criatura metade homem, metade lagarto, com a condição de nunca invocar o nome de Deus. Quando fez o sinal da cruz, tudo desapareceu. Diz a tradição que o Homem-Lagarto ainda hoje guarda o sítio, escondido até dos arqueólogos.

É verdade que a lenda do tesouro causou a destruição de 1986?

Em finais de 1986, parte das ruínas das Mesas do Castelinho foi destruída com maquinaria pesada. Segundo o Município de Almodôvar, os responsáveis procuravam os tesouros da lenda do Homem-Lagarto. Dessa destruição nasceram as escavações de emergência e, a partir de 1988-1989, o projeto de investigação sistemática que revelou a importância do sítio. A lenda, sem querer, lançou a carreira científica do monumento.

Qual é a escrita que ninguém consegue ler?

A Escrita do Sudoeste, presente em estelas encontradas no concelho de Almodôvar, é considerada o mais antigo sistema de escrita da Península Ibérica e permanece por decifrar. Nas Mesas do Castelinho, uma estela com esta escrita foi avistada em 2007 e levantada em setembro de 2008, reutilizada com a face gravada voltada para baixo num aterro sob uma rua romana republicana, cerca de três séculos mais antiga do que a superfície em que assentava. O Museu da Escrita do Sudoeste (MESA), em Almodôvar, é o museu de referência desta escrita misteriosa.

O que é a cabeça de terracota a que chamam "Batata"?

Uma pequena cabeça humana de terracota encontrada em 1995 no Sector A1 das Mesas do Castelinho, em posição secundária num contexto da Idade do Ferro. Tem traços realistas e é possivelmente uma criança; a equipa de escavação trata-a por "Batata". A única arqueóloga a publicar sobre ela lê-a como "um brinquedo, ou mesmo um objecto decorativo", e não como divindade ou ex-voto. A leitura de "síntese cultural" mediterrânica e céltica que circula em materiais de divulgação não tem apoio em publicação arqueológica.

De onde vem o Hino dos Mineiros que se canta em Neves-Corvo?

O hino cantado pelas comunidades mineiras do Baixo Alentejo tem origem na canção asturiana "Nel Pozu María Luisa" (também conhecida como "Santa Bárbara bendita"), que lamenta um acidente mortal numa mina de carvão das Astúrias. Os mineiros de Aljustrel adaptaram-na ao português, e a tradição chegou a Neves-Corvo, onde ainda se canta no dia da vigília dos mineiros. Na memória popular circula também a versão de que a melodia seria chilena, e essa disputa faz parte da própria história da canção.

A freguesia desapareceu e voltou a existir?

Sim. Em 2013, a reforma administrativa nacional agregou Santa Clara-a-Nova a Gomes Aires numa união de freguesias. A Lei n.º 25-A/2025, de 13 de março, repôs as duas freguesias separadas, com efeitos a partir da tomada de posse dos órgãos eleitos nas autárquicas de outubro de 2025. Doze anos depois, Santa Clara-a-Nova voltou a ter freguesia própria.